sábado, 14 de junho de 2014

Era um corpo ainda feto, nem nascido, inacabado. Era um corpo esparramado pela cama, pelo teto, pelo quarto. Era um corpo meio vivo, que crescia, que brotava. Um corpo todo remendado, que agregava, transgredia. E era um corpo que sentia, que sabia, interrogava. Um corpo meio amolecido, endurecido, um emaranhado. E era esse corpo infinito, expandido, atravessado. E uma pergunta, lá de longe, insistia em acontecer: “Com quantas palavras se faz um corpo?”.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

 Escuro da noite. Pulsante silêncio. Palavras derretidas me inundam, não escorrem, endurecem no meu corpo. Aprisiono-me no opaco e no invisível. Já não pressinto o que de longe me assoma. E é impossível que alguém ainda exista, que persista nesse branco que me assombra. E é impossível que o mundo ainda gire, agora que na casa as paredes não se encontram. Eu não sei mais dizer do que preciso, depois que em cada rua os meus passos se perderam. Depois que voltou tudo, lentamente, sem contorno. Depois que qualquer coisa se tornou prova incontestável... Ainda sim, contestei sem piedade. Precisava era me ver localizada. Localizar-me em algum canto em coerência. Mas tudo em mim explode em cores vivas. E eu já não sei o que fazer com o movimento.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Ficaram para sempre dias claros e sorrisos inocentes!
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É que de repente a morte veio e me lembrou de tudo isso.

domingo, 27 de outubro de 2013

Palmas. Sim, parecem milhares de palmas coloridas a cantar em uma noite assim, em que não se esperava nada além, nada a mais. E que, para ser sincera, não teve nada além e não teve nada a mais, mas as palmas coloridas... sim, eu via as palmas se agitando coloridas por todo o lugar.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

 No ponto cego de uma vida, de repente fez-se um corte. No ponto alto de um encontro, sem se ver perdeu-se o rumo. E para sempre, sem motivos, ouviu-se um grito absurdo. O grito era um aviso: Não se guie por um traço sem fissuras! 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Às vezes é melhor cortar o que faz mal. Deixar brotar em outro lugar. Deixar que os olhos não enxerguem o que por eles se desfaz. Às vezes é melhor cortar o que faz mal e desdenhar da dor que na pele fez seu ninho, que nos pelos se instaurou. É melhor deixar que um ponto se espalhe e se afugente em uma eterna dança sem sabor. Em um eterno sem saber fazer. Às vezes é melhor cortar o mal pela raiz e a impregnar de todos os dedos, de todas as aspas e vírgulas que um dia te rasgou. É que às vezes é melhor ignorar o peito aberto e já queimado e deixar que o que faz mal se espalhe a ponto de perdermos seu alcance, de perdermos seu valor

terça-feira, 11 de junho de 2013

Mas, por favor, não me diga que não sabe. Esfregue nas paredes toda a sua raiva, destrua as prateleiras e não se acanhe, corte todas as amarras, mas não me diga que não sabe. Por favor, não me diga que não sabe. Não me diga que não viu ou não sentiu nenhuma pontada. Que não ouviu todas as vozes, os gritos, os sussurros. Arrebente sem pudor tudo aquilo que possa me cortar, não tenha medo. Olhe nos meus olhos e grite todas aquelas palavras sem vazão, sem sentido e sem contornos. Destrua. Reconstrua toda a lógica lapidada pelas nossas mãos lentamente. Ou então me abrace forte e despeje sobre mim somente os dias bons e os pensamentos fortes, mas, por favor, não me diga que não sabe. Não me deixe perceber a sua indiferença em relação às minhas gotas de suor, à minha voz relutante e às minhas mãos já sem coragem. Não me deixe sem resposta a qualquer indagação sem coerência, a qualquer comentário tolo e inacabado. Permita-me sentir a textura das palavras proferidas sem intenção e sem desejo ou então me afunde,  eu objeto desprezível e repulsivo. Mas, por favor, não me diga que não sabe.