E eu que não me reconheci depois daquela noite, depois daquele brilho,
daquela suavidade. E eu que fui andando a esmo sem notar as cores, sem tocar as
notas, sem me enxergar. E eu, um pássaro calado sem saber voar. Um vento
irrequieto e louco a procurar o mar. Eu me soltei sem rumo no meio da rua, quis
tocar as plantas, quis saber das letras. Eu quis, recatada e triste, sentir um
além daquilo que eu sabia. E em mim explodia uma harmonia que se fazia o avesso
de sua própria ordem. Uma harmonia que eu não notava e o meu corpo todo era
atravessado, era transgredido, era revirado. E no meu corpo inteiro os pássaros
cantavam, as cores inundavam e tudo transbordava.
domingo, 12 de maio de 2013
terça-feira, 16 de abril de 2013
É só no corpo que eu existo. E nas paredes eu me mostro. Sinto uma dor
em estar viva. Dor que se abre nas palavras. Hoje sou frases curtas,
entrecortadas. E eu deveria. E gostaria. Sufoquei-me com o que via e os meus
braços paralisados... Eu não soube como existir. Não soube o que me dizer para
justificar a morte em mim. Para justificar o meu desamparo, o desamparo que eu
mesma pedi. Eu não soube como dizer para me fazer entender que eu estava ali.
Que eu era o espaço, o vento e as pedras. Abdiquei do meu próprio sorriso,
abdiquei das linhas do meu corpo. Hoje eu sou as letras, o branco e o vazio.
Hoje eu não estou mais em mim
domingo, 24 de fevereiro de 2013
É assim tão de repente, em uma gota que escorre pela porta. Os meus olhos se invertem, o meu corpo me adormece. É assim tão de repente, é uma fresta na janela e as minhas mãos me negam qualquer esforço. Tomo consciência desse piso, que é tão duro, tão escuro. Que é tão frio. É solidão os pelos no meu corpo. É solidão os meus passos leves e apressados. É solidão a minha boca imóvel e triste. É solidão quando o corpo não encontra abrigo. É solidão quando não há lugar que faça tudo se acalmar.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Hoje, se eu pudesse, me jogaria em uma piscina, me jogaria em um rio, em um lago, em um mar. Hoje, se eu pudesse, eu me afundaria em águas calmas, mergulharia fundo em algum lugar quieto. E quando eu nadasse os meus movimentos causariam alguma mudança de rota, algum desvio impensado. Os meus cabelos estariam por toda parte, o meu corpo estaria por toda parte. Na minha pele a água viria de manso, de leve. Reinventaria, a cada mergulho, uma imensidão de células e de cores, uma imensidão de sonhos e de temores. Na água me abandonaria sem medo e sem dor. E a minha respiração contida seria testemunha de um corpo livre, de uma água limpa, de um corpo-água.
domingo, 17 de fevereiro de 2013
Das sete cores
Quando sete cores invadem o céu tudo se move lentamente. Deixo para depois as distrações e envolvimentos e tudo que importa é a luz, é o brilho colorido. Quando sete cores invadem o céu o infinito explode suavemente e cada nuvem que contemplo é testemunha de um sorriso. Já todas quase pálidas se despedem docemente. Vão embora da minha janela e me deixam encantada, colorida. Vão embora da minha janela e me deixam suavizada.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
domingo, 23 de dezembro de 2012
E no que me diz respeito eu abdico. Quero me desfazer dessas ondas
apertadas, quero deixar que o vento leve no seu passeio as minhas marcas. Eu
quero que tudo acabe se assim me for possível. Quero que tudo volte de uma
forma inconseqüente e machucada e que tire de mim esse sonho já vivido. Um
cansaço já dito e repetido. Um sorriso já solto e inexpressivo. Que o tempo me
permita. Que as luzes não me afoguem. Que os sons não me afugentem. Nem que
seja com dor e com lamentos. Que eu mesma me permita.
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